Soppa de Letra - Pedro Paulo Rangel
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Segunda-feira, Março 01, 2010

RECADASTRAMENTO
Esta semana, como é obrigatório que se faça todos os anos, levei minha mãe, agora com 87 anos, para provar que está viva, e desse modo poder continuar a receber seus proventos como funcionária aposentada do Serviço Público Federal. Na esclarecida visão do Governo -qualquer governo-, os muito vivos se fingem de mortos, para não trabalhar. E, no caso dos aposentados, os mortos se incorporariam em vivos muito vivos, para continuar a receber suas pensões. Acontece, é verdade, mas nem sempre. É bom lembrar que o funcionalismo público não tem direito à Fundo de Garantia e, de um tempo pra cá, os aposentados começaram a ser descontados em 11% para o INSS.
-Mas como assim, desconto para o INSS? Eu já não sou aposentada? Vou começar a contar tempo outra vez? Acho que não vou conseguir viver o suficiente para me aposentar de novo!
Eu falei: -Mamãe, fala baixo, por favor. Olha ali no cartaz: desrespeito à funcionário público no desempenho da função, dá cadeia. E ela: -E desrespeito à funcionário público como eu, que já cumpriu a função, não dá nada?
E raciocina o governo: há que se abrir bem o olho com esse tipo de gente! Quanto mais velhas vão ficando estas prateadas raposas de pijama,(ou de camisola, como é o caso presente) mais espertas e ávidas se tornam. Ficam anos em casa, sem fazer absolutamente nada, mamando nas tetas da nação, só imaginando formas extravagantes de driblar a ceifadora, e que, quando são chamadas a nos prestar um favor, -apenas uma vez por ano!- vem cumprir seu compromisso cívico ruminando ressentimentos, ora vejam só!
Muito bem, eis como acontece o processo de recadastramento: primeiro recebe-se em casa um cartinha com as Armas da República, dizendo o local, (o antigo Ministério da Justiça, na Avenida Antonio Carlos), o prazo (geralmente a duração de todo o mês do aniversário do aposentado(a)) e os documentos necessários que são: carteira de identidade, CPF, contracheque, extrato de conta bancária e uma conta qualquer(luz, telefone), que sirva como atestado de residência. Os originais e suas respectivas cópias, devidamente autenticadas. Eu, que já estou ficando velhinho e precisando me aposentar também, todo ano me esqueço que as tais respectivas cópias, devidamente autenticadas, na hora agá, nunca são sequer mencionadas, o que dirá, pedidas. Desta vez não deixei passar:
-E as cópias devidamente autenticadas? A moça me olhou como se eu tivesse falado cantonês. -Na carta diz pra gente tirar xeroz de tudo e autenticar. –Não, meu amigo, só se vier outra pessoa no lugar dela, e apontou mamãe com o queixo, enquanto decidia se a foto na carteira de identidade, tirada em 1955, e Dona Alzira, eram a mesma pessoa. Aproveitei para dar uma outra lida na carta e ver se conseguia perceber onde se escondia a sutileza e não achei nada. Deve estar nas entrelinhas. Mamãe tirou uma foto, assinou uns papeis, recebeu sua cópia e fomos saindo.
A funcionária despediu-se: -Até o ano que vem. Se Deus quiser.



Dona Alzira, agora com 87 anos, devidamente recadastrada para o ano de 2010.

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 1:01 PM

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Sábado, Agosto 16, 2008

SOM & FÚRIA

Ok, você venceu: batata frita! Tem toda a razão em criticar a morbidez da foto que encerrou o post anterior. Mas você ignorou a legenda que sinalizava uma explicação mais adiante.
Aquele, deitado em esplêndido caixão de primeiríssima (o cujo tem até um dispositivo, maquinado através de uma manivela, que eleva e abaixa o cadáver luxuosamente repousado em seus acolchoados cetins) é o ator Lourenço Oliveira, diretor artístico da Companhia Estável do Teatro Municipal de São Paulo, especializada em espetáculos do repertório clássico. Ao contrário do Sir, seu quase homônimo colega inglês, Oliveira nunca recebeu uma comenda ou qualquer outro afago oficial. Não toma chá às cinco da tarde em uma confortável propriedade campestre, cercado de bem cuidados jardins e de gordos cães de boa raça. Ressentido, alcoólatra e decadente, solitário e em fim de carreira, deve morar numa escura quitinete atulhada de livros mofados e com uma única janela debruçada sobre o avesso do avesso do avesso do avesso. Está em vésperas de estrear uma lamentável direção do Sonho de Uma Noite de Verão, um tremendo equívoco, povoado de fadas gordas e ovelhas de isopor. É assim que ele será apresentado aos espectadores no primeiro episódio da minissérie Som & Fúria, com estréia prevista para fevereiro de 2009, na TV Globo. Já nos episódios seguintes... e mais não conto, para não estragar a festa.
Ok, só mais um pouquinho então. Apesar dos matizes escuros do acima descrito, meu personagem é cômico (novidade...) A direção geral é do Fernando Meireles, (co-ajudado por Gisele, Toniko e Fabrizia) aquele de Cidade de Deus, Cidade dos Homens, Antônia. Sim, e também de Blindness, nosso representante no último Festival de Cannes, adaptação do livro do Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, e que será lançado aqui em São Paulo em setembro com a presença da Julianne Moore. (onde eu vou achar coragem de pedir a ela um autógrafo? quem sabe uma foto? que ousado!)


Fernando dirige.(foto Kiko Meireles)

Som & Fúria é uma série canadense (Slings and Arrows, Ossos do Ofício, numa tradução aproximada) adaptada pelo Guel Arraes e pelo Jorge Furtado. Fala de teatro e, conseqüentemente, da fauna que habita a selva: atores, atrizes, estrelas, coadjuvantes e figurantes, diretores, administradores, patrocinadores, público e crítica. No elenco temos de um tudo, para deleite de todos. O protagonista, Dante Viana, era o mais excepcional ator de sua geração e certo dia dá uma pirada e abandona tudo, e quando a história começa Dante dirige um grupo teatral, daqueles que batalham sem recursos na periferia. É feito pelo Felipe Camargo, um ator amadurecido, sóbrio e requintado, e que sempre foi gente muito mais que fina. É meu vizinho do quarto ao lado aqui no hotel, e suporta calado as madrugadas em que eu, com a TV no último volume (sou surdo, lembra?), torço aos berros pelos rapazes da nossa seleção olímpica de vôlei.


Felipe está pronto.

É da Andréa Beltrão o principal papel feminino: Helen, a primeira atriz da companhia. Consagrada quando fazia os papeis das jovens heroínas shakespearianas, chegou a uma idade em que só é crível no palco como a mãe de Hamlet ou a ama de Julieta. Isso a Helen, porque a Andréa faz, ontem, hoje ou amanhã personagens de qualquer idade, nacionalidade, ou sexo. Ela também está hospedada aqui no hotel, num apartamento bem em cima do meu. Brinco, dizendo que não durmo enquanto ela não termina seus exercícios de dança flamenga. Mentira, claro. Mas não será um sonho se alguém, algum dia, a vir de mantilha preta, uma rosa nos dentes, las manos como palomas, taconeando no Viaduto do Chá.


Andréa espera.

O porteiro do Teatro é feito pelo Gero Camilo, que é ator especialíssimo, além de músico e cantor. Lembra de Carandiru? Pois então. Foi naquele filme que o Gero, cearense radicado em São Paulo, ficou conhecido no Brasil todo e deixou o Rodrigo Santoro literalmente de quatro, apaixonado por ele. Aliás, o Rodrigo Santoro também estará na minissérie. A Regina Cazé idem. E o Fagundes. E o Dan Stulbach. E a Maria Flor (Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem... ) a Cris Couto, o Paulo Betti. E mais algumas dezenas de excelentes atores paulistas. Seremos 122 personagens em 12 episódios. E, last but not least, tem o Daniel de Oliveira, um dos mais brilhantes membros do clube dos baixinhos talentosos. (modestamente...) Seu personagem, Jacques, um famoso ator de televisão, considerado imaturo e de talento banal, é chamado para protagonizar o Hamlet, com o objetivo de atrair para as velhas poltronas do Municipal um público que não costuma freqüentar o teatro.


Hamlet e Gertrudes ensaiam.

Daí que... bom, daí que o ano passou rápido que foi uma beleza, e daqui a pouco já é Natal, e logo depois chega o Carnaval, e em seguida estaremos no ar nesta que tem sido a coisa mas prazerosa de que participei em TV nos últimos anos.


Lourenço Oliveira está feliz. (foto Cacá Meireles)


postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 4:55 PM

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Sexta-feira, Julho 04, 2008

40 DE CARREIRA + 60 DE VIDA:
100 ANOS NUMA PISCADA.

Meus pais, Lélio e Alzira, funcionários públicos, sempre sonharam pra mim uma sólida carreira num banco ou nas forças armadas. Mas, ao mudar-me aos 11 anos da Lapa, onde nasci, para o Rio Comprido, onde morei por 40 anos, passei a ter como vizinhos de porta uma família que fazia teatro amador. E aí...

Na década de sessenta do século passado, o Conservatório Nacional de Teatro funcionava à Praia do Flamengo nº132, no terreno que a UNE recebeu de volta, ainda outro dia. O prédio tinha sido parcialmente incendiado na noite do golpe de 31 de março e era conservado daquele jeito. O auditório principal impressionava com as altas paredes chamuscadas de negro. E foi no seu “Palcão”, em 1966, que estreei na minha primeira tragédia: Antígona, como o guia de Tirésias, um personagem mudo. No ano seguinte, outra tragédia, quando ganhei minhas primeiras falas: Édipo Rei, dirigido por Ruy Sandi. Meu personagem era o Mensageiro de Corinto. O público riu bastante, o que me deixou arrasado. Onde já se viu gargalhar com Sófocles?


O Mensageiro de Corinto

A turma do curso de Interpretação daquele ano, prometia: Augusto (Gugú) Olímpio, Angela Vasconcelos, Raimundo Alberto, Walter Marins, Marco Nanini, Carlos Gregório, Jorge Cândido, Jorge Botelho, Luiz Armando Queiroz. Nanini e eu escolhíamos sempre os personagens cômicos e éramos olhados meio de esguelha por conta disso. Vejam pois que, apesar de a Escola de Teatro ter sido risonha e franca, já rolava o preconceito. Mas os mestres eram maravilhosos: Sadi Cabral, Sérgio Viotti, Maria Clara Machado, Orlando Macedo, Bárbara Heliodora, Lilian Nunes, Glorinha Beutmuller, Carlos Kröeber, Nelly Laport, Roberto de Cleto.

Eu cursava o último ano quando houve um teste para Roda Viva, de Chico Buarque. Minha muito convincente personificação de um elefante da Tasmânia impressionou Zé Celso e fui aceito e chamado para o coro, onde estariam também, Zezé Motta, Samuca, Eudosia Acuña, Érico Widal, Fernando Resky, entre outros. Egoísta, não avisei Nanini do teste, o que não fez a menor diferença para a carreira dele, muito pelo contrário.

Era 1968 e Roda Viva cumpriu uma curta porém auspiciosíssima carreira no Teatro Princesa Isabel, no Rio. Rute Escobar fez uma trouxa e carregou-nos todos para São Paulo. Lá, Marília Pêra entrou no lugar de Marieta Severo e Rodrigo Santiago no de Heleno Prestes. Antônio Pedro, Flávio São Thiago e Paulo César Peréio continuaram, e todos eles formavam o grupo dos “representativos”. Nós do coro, o “lumpem proletariado”, ganhamos as adesões de André Valli e Margot Baird. Abre parênteses: a estréia profissional de André Valli não foi em Roda Viva, como saiu publicado em vários necrológios, e sim em uma série de espetáculos do diretor baiano Alvinho Guimmarães e apresentados num palco improvisado de um bar em Copacabana, o Ádria Azul. Assisti a um deles (65?66?), chamava-se Anabela, Anabela, meu filho! e talvez tenha sido escrito por Roberto Franco. Depois do espetáculo, André e eu nos encontramos no ponto do ônibus, nos apresentamos, e pela primeira vez conversamos por muitas horas. Saudades, André. Fecha parênteses. Em Sampa, Roda Viva repetiu seu sucesso retumbante! Depois de nós atores tomarmos muita porrada em dois ataques do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, Roda Viva foi proibida pela censura em todo o território nacional e saímos enxotados de Porto Alegre em um ônibus de carreira, escoltados por sinistros motociclistas. Durante a tumultuada carreira da peça, ganhei um upgrade para os “representativos”, e passei a fazer o personagem Anjo Branco, contracenando com meu amigo e futuro compadre, diretor de quem fui muitas vezes assistente, Antônio Pedro.


Com Antonio Pedro, estreando na rodaviva


Zé Celso recolheu o que sobrou de nós e enxertou no coro de Galileu Galilei, de Brecht, a montagem mais linda de que participei. Os cenários eram enormes chapas de bronze e os figurinos fardas verde-oliva, tudo assinado por Joel de Carvalho. Em dezembro de 69, na cena final do espetáculo, enquanto atrás de grades e de arame farpado dançávamos e cantávamos o Banho de Lua de Cely Campelo, era baixado o Ato Institucional nº5. Ganhei novo upgrade, passando desta vez do coro para o papel do Pequeno Monge, e tive o privilégio de receber em cena aulas diárias de interpretação ministradas por Cláudio Corrêa e Castro.

As comédias tomam quase que noventa por cento do meu currículo de ator. Seria mais do que um jogo de palavras dizer que não sou eu quem as procura elas sim é que me escolhem. Estou tranqüilo no meu canto, e, quando dou por mim, lá está um personagem cômico me acenando. Disfarço, saio de fininho, de braços com o Pe. Antônio Vieira, por exemplo, e eis que inopinadas gargalhadas surgem quando faço minhas as palavras do velho jesuíta. Seria talvez um anátema lançado por Sófocles, ainda aborrecido com aquelas risadas que macularam seu Édipo, lá atrás?

Meu santo não se deu bem como o de Shakespeare nas duas vezes em que cruzamos nossos bigodes. A primeira foi em Romeu e Julieta. Um fracasso, pois a versão filmada do Zefirelli estreou uma semana antes de nós. Na segunda vez, o personagem Shylock, de O Mercador de Veneza, me deixou de cama e quase me fez desistir da carreira. Mas, para meu espanto e consolo, este último me deu um Prêmio Cultura Inglesa de melhor ator.

Os três prêmios Molière que tive a honra de receber, credito-os também aos respectivos diretores: Naum Alves de Sousa, por Aurora da Minha Vida; Luiz de Lima, por Machado em Cena, um Sarau Carioca; e Moacir Chaves, pelo Sermão da Quarta-feira de Cinza. Cada qual com seu estilo, um completamente diferente do outro. Naum -aparentemente calmo- muito cordato e paciente, é capaz de ficar horas sentado à frente de um ator, experimentando-o, procurando entendê-lo ou testando seus limites. Luiz de Lima -inexcedível mímico luso-brasileiro, elétrico e de personalidade fascinante- no primeiro dia de ensaio lia sozinho a peça para os atores, fazendo todos os papéis. E já os trazia prontos! Era, então, uma pedreira, tentar chegar perto do que ele nos mostrava (e cobrava!) Moacir - o mais jovem, e à época o mais inexperiente - acho que morria de medo que eu, de uma hora para outra, largasse o Padre Vieira prá lá, incomodado com aquela loucura toda. Tive sim, vontade de desistir, mas por pavor meu de enfrentar aquele texto, seguramente a coisa mais difícil que eu já tinha chegado perto. Naquele ano ganhei todos os prêmios, e Moacir, a partir dos anos seguintes, começaria a colecionar os seus.

Sou um dileto filho do Teatro e um apaixonado, embora não correspondido, fã de Cinema. Mas é a Televisão quem me sustenta e que me deu tudo o que tenho. E sou extremamente grato a ela por isso. Só de Tv Globo são mais de trinta anos. Fiz de tudo lá: novelas, minisséries, linha de show, Caso Verdade, Você Decide, Terça Nobre, Quarta Nobre, programas de humor (Viva o Gordo, Chico Anísio Show, Armação Ilimitada, Tv Pirata, Sob Nova Direção, A Diarista, Os Aspones, Minha Nada Mole Vida) Fui o primeiro nu da tv brasileira em Gabriela (ainda bem que já consegui provar que não sou apenas um corpinho bonito...) e o primeiro gay assumido, o Adamastor de Pedra Sobre Pedra.

)
Adamastor, entre Tania Alves, Lilia Cabral e Paula Burlamaqui

Meu próximo trabalho será uma minissérie sobre uma companhia de teatro. Dirigido por Fernando Meireles, um homem de cinema. Meu personagem é um diretor gay. Que só monta tragédias. De Shakespeare.

Muito mais de uma centena de trabalhos em 40 anos de Cinema, Teatro e TV. Não é pouca coisa.
Agradeço aos Amigos que, no passado, no presente e (espero) no futuro, me amam, aceitam, compreendem, criticam, perdoam e, o mais importante de tudo, estão sempre por perto. E agradeço também aos Deuses, que nunca deixaram de me abençoar, e humildemente peço a eles que continuem a me proteger enquanto eu andar distraído.


Descanse em Paz e... aguarde o próximo post!

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 6:18 PM

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Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

UM HOMEM CÉLEBRE, UMA OPERETA.


Da esquerda para a direita, em cima: Rodrigo Lima, Júlia Rabello, Laura Castro e Marcello Sader. Em baixo, eu, Suely Franco, Wladimir Pinheiro e Aldri Anunciação.


No final dos anos 90, no velho cais de Paraty, fotografei uma traineira. Não foi a embarcação em si que me atraiu, pois pouco ou quase nada a diferenciava das muitas outras que esperavavam para ser alugadas pelos turistas. Simplezinha, meio apartada, era branca com frisos azuis e amarelos. O que verdadeiramente me fez prestar atenção nela foi, primeiro, o seu nome: FAMA. Depois, um cartazete tosco, colado ao vidro do passadiço, onde se podia ler: VENDE-SE.
Bem, é senso comum que um barco traz duas alegrias ao seu proprietário: uma quando ele o compra, e outra quando vende. Eu ia especulando, enquanto fotografava: FAMA teria custado caro? Seu dono havia enfrentado muitas dificuldades para consegui-la? E por que razões a estava pondo à venda? Por problemas financeiros, talvez? Ou ele, simplesmente, estava cansado de FAMA?
Não por coincidência, claro, dia desses pus de novo meus olhos sobre aquela foto. O triste, soturno -trágico mesmo- conto, Um Homem Célebre, de Machado de Assis, toca justamente nesse dilema. Não, querida, o conto não fala da venda de um barco, tampouco dos devaneios de um fotógrafo. Nosso herói, o melancólico Maestro Pestana, não se satisfaz em ser um compositor de dezenas de polcas de sucesso. Esta fama o tortura e o incomoda profundamente. Ele não a vende, ele a dá em donativo. E vai mais além: paga caro para que outros a desfrutem. Se Machado tinha conhecimento da existência da palavra carma e de seu significado, não sei dizer. Mas de causa e efeito ele certamente entendia bastante: seu protagonista só encontra descanso quando prova do Amor nos lábios da Morte.
A transformação do conto machadiano em opereta foi feita pelo multidotado Wladimir Pinheiro. Ator, cantor, pianista, compositor, poeta e arranjador, ele extrai solaridade tropical desta tragédia carioca, e a expõe, carnavalizada de maxixes e lundus. Wlad disseca as viúvas patuscas, as moçoilas casadoiras, os sabidos empresários aproveitadores -personagens comuns à alma encantadora das ruas do Rio de Janeiro, daquela ou de qualquer outra época- e, carinhosamente, os envolve em tangos, valsas e canções. Mas, quase ao final do espetáculo, o som lúgubre de um Réquiem lembra a última parte do Sermão da Quarta-feira de Cinza, do Padre Antonio Vieira, onde o jesuita disserta sobre o terrível momento, quando o Homem e a Morte têm seu encontro final: “ ...Nenhum homem há, naquele ponto, que não desejasse muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida completamente diferente. Mas já é tarde, já não há mais tempo. É certo que todos caminhamos para aquele passo. É infalível que todos havemos de chegar, e todos nos havemos de ver naquele terrível momento. E pode ser que muito cedo...”

Em cartaz a partir de 9 de abril no CCBB do Rio de Janeiro. Aguardo a presença de vocês e espero que se divirtam!


postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 7:02 PM

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Domingo, Dezembro 30, 2007

Este blog foi criado a partir do espetáculo teatral SOPPA DE LETRA e propunha-se a apresentar uma descrição do processo de ensaios até a estréia. Bem, mudou o Natal, mudei eu e este espaço espelha as mudanças muito mais do que eu gostaria.
Dentre as resoluções para o ANO NOVO de 2008 estão uma total reforma gráfica -e quiçá conteúdica- deste espaço, que esperamos se concretize em breve!
Para os amigos que me visitam desejo SORTE, SAÙDE e SUCESSO. E AMOR, naturalmente. O AMOR está sempre incluído. E, como prova disso divido com vocês o presente que recebi do ator Leonardo Netto: algumas frases do jornalista e homem de Teatro Nelson Rodrigues, sobre a matéria. Você poderá concordar ou discordar, mas certamente não ficará indiferente a elas.

A causa de todas as doenças, sejam físicas, sejam psíquicas, é a impotência do sentimento. Desde a brotoeja até o câncer no seio, tudo é falta de amor.

Um sujeito precisa de quinze encarnações para viver um momento de amor. Porque a pessoa amada, nada a obriga a estar na cidade onde a gente mora, a cruzar o nosso caminho. De forma que encontrar a pessoa amada é um cínico e deslavado milagre.

É a soma de todos os amores falhados que torna o homem capaz de amar e ser amado.

Qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Por isso, não deixe ninguém saber que você ama.

É o amor que impede o homem de trotar pela Avenida Presidente Vargas, montado por um Dragão da Independência.

O amor é a arte do lazer. O amoroso precisa de tempo.

A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal.

O casamento não é culpado de nada. Nós é que somos culpados de tudo.

O verdadeiro amor mete medo. Ninguém quer ser amado.

Dirá alguém que sexo e amor são a mesma coisa. Ah, não. Tão parecidos e tão diferentes.

O destino, quando concede a graça inefável do amor, subtrai uma série de outras coisas. Antes de mais nada, o sossego. Quem ama, não tem sossego, perdeu-o, para sempre.

O mal amado sente-se hostilizado até pelas paredes, pelos edifícios, pela paisagem.

Impossível amar sem sofrer. E quando não há motivos concretos, a pessoa os inventa. O amoroso, ou amorosa, é, por excelência, um fabricante de fantasmas, fabricante de possibilidades sinistras.

Ás vezes, um simples qualificativo chega para invalidar um romance. Está neste caso o “bonzinho”. O nosso bem-amado não pode ser “bonzinho”, nunca. É formidável, único, deslumbrante, fabuloso. Menos “bonzinho”.

Amar é ser fiel a quem nos trai.

Bonita é a pessoa de quem a gente gosta. Não importa que para os outros seja horrorosa. O amor é isso mesmo; ou seja: esta capacidade de ver o que os outros não vêem, de ver o que não existe e, enfim, de conferir a um cidadão, qualidades físicas que ele, na maioria dos casos, não tem.

Nas crises amorosas não importa saber quem tem razão, importa saber quem ama mais e quem ama menos. E só existe uma vítima: o que gosta mais. “Gostar mais” significa uma trágica situação de inferioridade. Ao passo que “gostar menos” implica um estado extremamente confortável.

Tudo o que acontece com o nosso bem-amado desperta, em nós, uma infinita piedade. Mesmo coisas simples, como uma injeção, uma dor de cabeça, uma nevralgia ou uma tristeza. A mãe tem pena do filho, o namorado da namorada, a noiva do noivo, a mulher do marido. E, por um motivo lógico: a compaixão é uma conseqüência do afeto. Só um monstro não teria pena do seu amor.

A coisa mais fácil e comum do mundo é um amigo, ou amiga, sugerir que acabemos com os nossos romances. Como se trata de uma felicidade alheia, eles se enchem de coragem, de fúria, de implacabilidade. O amigo é intransigente, feroz, agressivo. Opina: “Eu não aturaria isso!” Aturaria, sim. Aturaria isso e coisas piores.

Há, em amor, um problema sem possibilidade de solução: o do ciúme. Quem ama, sente, fatalmente ciúme. Com ou sem motivos. Muita gente diz: “Ciúme é falta de confiança.” Seja e não importa. Quem ama, desconfia, sempre.

O bom, o doce, o recomendável ciúme, é aquele que nasce sem razão, que nasce sem motivo, que não se baseia em nenhuma prova concreta. Passa, então, a significar apenas amor, interesse, ternura e esse universal sentimento de exclusividade.

No amor somos todos fantoches: não escolhemos nem certo, nem errado, porque simplesmente não escolhemos.

Entre duas pessoas que se amam não há perversão possível, tudo é direito, fabuloso e normal.

Se todo mundo conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentava ninguém.

Amar é dar razão a quem não tem.

Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor.


Copacabana, 1923 (presente de Cândido Damm, blogueiro, ator, fotógrafo filho de peixe e gente finíssima, não necessariamente nessa ordem)


FELIZ ANO TODO!


postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 3:15 PM

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Domingo, Dezembro 02, 2007



Tessy Callado me enviou o que disse Dalton Trevisan:
"Só a obra interessa. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas. Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você advinha o que não sabe. Para escrever mil novos contos a vida é curta. Uma história nunca termina. Ela continua depois de você. Um escritor nunca se realiza. A obra é sempre inferior aos sonhos. Fazendo as contas percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada. O melhor conto só se escreve com tua mão torta, teu avesso, teu coração danado. Todas as histórias a mesma história. O conto não tem mais fim senão começo. Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete. Isto sim é conhecer o sortilégio"


( Fotos do livro "O Grafitti na cidade de São Paulo e sua vertente no Brasil", Coleção Imaginário. Metabiótica, de Alexandre Orion)

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 8:09 PM

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Domingo, Novembro 04, 2007


DESEJO PROIBIDO


Vídeo realizado por Diana Ferreira

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 4:59 PM

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Domingo, Outubro 21, 2007



A palavra Namaste (pronuncia-se Namastê) é composta de duas palavras sânscritas: Nama (reverência, saudação) e Te, que significa você. Em síntese é: saúdo a você, de coração; o que deve ser retribuído com o mesmo cumprimento. Pelos meios esotéricos acabou ganhando o significado floreado de “O Deus que habita em mim saúda o Deus que há em você”.

O gesto do Namaste, conhecido pelos budistas como Anjali mudra, consiste no simples ato de juntar as palmas das mãos ante o coração (ou mais precisamente o chakra do coração), e inclinar levemente a cabeça. Metaforicamente, os cinco dedos da mão esquerda representam os cinco sentidos de karma, enquanto os da direita representam os cinco órgãos do conhecimento. Significa então que mente e coração devem estar em harmonia, para que nosso pensar e agir estejam de acordo com o Dharma. Também é um reconhecimento da dualidade que existe no mundo e sugere um esforço de nossa parte para trazer essas duas forças unidas em equilíbrio.

Contando os dedos, um total de dez é alcançado. O número dez é símbolo da perfeição, da unidade, em todas as tradições antigas. As dez Sephiroth na Árvore da Vida, os dez Mandamentos, o símbolo da criação no sistema de Pitágoras e o número do equilíbrio perfeito para os antigos Chineses.

A mitologia por trás deste gesto é no mínimo curiosa: O Prof. Wagner Borges conta que o Deus Krishna escondeu as roupas de algumas garotas que se banhavam no rio Yamuna. Elas suplicaram de todas as formas a ele para devolvê-las, mas Krishna permaneceu irredutível. Somente quando elas fizeram o gesto do Namaste é que ele ficou satisfeito e devolveu as roupas.

(Surrupiado do blog Café Preto 2, que por sua vez surrupiou às escondidas do Saindo da Matrix)


(fotos Hermano Taruma)

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 2:03 PM

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Sexta-feira, Junho 22, 2007

DP... O quê?

A partir do dia 3 de julho, no Conjunto Nacional da Av. Paulista em São Paulo, estará sendo apresentada ao público a Exposição Fotográfica
"Haja Fôlego - O Mundo pela Ótica do Portador de DPOC"

Essa mostra apresenta a visão de aprisionamento aéreo e alívio respiratório contada por 10 portadores de DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (antigamente denominada enfisema pulmonar ou bronquite crônica). Trata-se de um problema ainda pouco conhecido pela sociedade, mas que mata pouco mais de quatro brasileiros a cada hora e afeta cerca de 5,5 milhões de pessoas no País.

Intitulada "Haja Fôlego - O Mundo pela Ótica do Portador de DPOC", a exposição é uma iniciativa da Associação Brasileira de Portadores de DPOC, uma entidade sem fins lucrativos dedicada à conscientização sobre a doença e à prestação de serviços de orientação sobre a DPOC, tratamentos e recursos que possam contribuir com o resgate da qualidade de vida do paciente e sua família.

A DPOC é uma doença pulmonar progressiva e incapacitante, que se manifesta normalmente a partir dos 40 anos de idade. Os portadores geralmente apresentam sintomas como falta de ar e tosse constante com secreção, características que dificultam o diagnóstico preciso e podem levar a confundi-la com problemas respiratórios mais simples. Mais de 90% dos casos estão diretamente relacionados ao tabaco, com pacientes fumantes ou ex-fumantes.

Estima-se que haja em torno de 300 milhões de pessoas em todo o mundo com a doença. Em estágios avançados, a DPOC impossibilita o paciente de caminhar, falar, alimentar-se sozinho e realizar outras atividades rotineiras, devido ao aprisionamento aéreo (acúmulo de ar nos pulmões que resulta na sensação de "falta de fôlego").

O crescimento da DPOC é alarmante. A Organização Mundial de Saúde prevê que até 2020 a DPOC seja a terceira causa de morte mais freqüente no mundo, atrás apenas da doença cardíaca isquêmica e do acidente vascular cerebral (AVC ou derrame cerebral). Por isso é muito importante que a população conheça o problema, os sintomas e procure um pneumologista, ao primeiro sinal da doença.
Embora não tenha cura, a DPOC pode ser controlada e, por meio de avançados medicamentos, reabilitação pulmonar e outros cuidados específicos, é possível reduzir o impacto da doença no dia-a-dia do paciente e contribuir com a melhora da qualidade de vida.

Para saber se uma pessoa tem possibilidade de ter DPOC, basta fazer o teste abaixo:

O questionário abaixo foi desenvolvido para a pré-detecção da DPOC.
1. Tem mais de 40 anos?
2. É fumante ou ex-fumante?

Se você respondeu "sim" às duas questões acima e responder afirmativamente a pelo menos uma das três perguntas abaixo, procure um especialista.
1. Apresenta tosse diária e constante?
2. Apresenta catarro pulmonar ou muco na maioria dos dias?
3. Fica com mais falta de ar do que as pessoas da mesma idade?

(release Adriana Solinas - Ketchum Estratégia)

Como sofro de DPOC, durante a temporada da SOPPA, fui obrigado a, algumas vezes, colocar um aviso na bilheteria ou comunicar ao público através do sistema de som do teatro que "o ator Pedro Paulo Rangel fará o espetáculo de hoje, afônico".
Depois de algum tempo, substitui este aviso formal por uma conversa com o público, numa espécie de intervalo que criei com este propósito. Nele eu abordava, de forma bem humorada, esta doença praticamente desconhecida -por mim, inclusive- causada em mais de 90% dos casos, pelo vício do cigarro. Após o espetáculo, os portadores de DPOC presentes, vinha trocar idéias comigo. E o que me chamou mais atenção nesses contatos foi a alta incidência de fumantes passivos alcançados pela DPOC. Desta maneira, por exemplo:
Entre as numerosíssimas substâncias nocivas existentes num cigarro, encontra-se também o amoníaco. O fumante não consome esta amônia, porque ela é detida pelo filtro do cigarro. Já sua mulher, seu marido, seu filho, ou o vizinho de mesa no restaurante, ou a velhinha na fila do banco ou o bebê tão lindo que você acaricia na rua enquanto dá suas tragadas, aspiram todo esse veneno, indefesos.
Para refletir.


(Foto )

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 12:44 PM

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Domingo, Maio 13, 2007




A primeira vez que entrei num foi em Buenos Aires, veja só. Tínhamos ido fazer uma temporada em Porto Alegre (devia ser por volta de 1974, pois O Noviço estava sendo exibido na Tv) com uma peça chamada A Teoria na Prática é a Outra, e de lá até Buenos Aires era um pulo. Quer dizer, não exatamente, pois teríamos que enfrentar uma noite de ônibus até Montevidéu, onde uma colega de elenco iria visitar seu tio brasileiro que vivia lá com a família, havia alguns anos, exilado pela ditadura. No dia seguinte outro ônibus até Colonia, e depois a travessia do Rio da Prata num aliscafo -espécie de catamarã gigante- que nos deixava às portas da capital portenha. O metrô deles tinha, já naquela época, mais de um século, e me pareceu formidável! Impressão desfeita alguns anos depois, quando me apliquei no metrô de Paris, este sim um portento! Era mesmo de embasbacar brasileiro desacostumado, aquela rede magnífica rosqueando por baixo da terra, que em poucos minutos te deixava em qualquer parte da cidade, e às vezes sem baldeação nenhuma! Lembro imediatamente do primeiro livro do Gabeira, onde ele conta sua experiência como condutor no metrô de Paris no comecinho dos anos 70. Era muito fácil reconhecer os brasileiros na platarforma -ele escreveu- pois quando a composição ia chegando, faziam sinal para o trem parar, como se fossem pegar um ônibus...
Mas quero falar do Metrô aqui do Rio, que não tem nada de portentoso. Uso-o muito e ele sempre foi seguro, limpo e fresquinho. E bastante prático também, apesar de, à sua inauguração, ter sido acusado de "ligar nada a lugar nenhum", por conta da curta extensão e do número reduzido de estações. A estação Arcoverde é praticamente dento da minha sala de jantar, e a SOPPA está sendo apresentada no Teatro de Arena da Caixa Cultural, ao lado da estação Carioca. Ir de carro e estacionar no centro da cidade? Esqueça. Dessa forma, uniu-se o útil ao muito prático, e a ida e a volta do teatro foram assim postas e decididas. Viajar num vagão fechado, embaixo da terra e ao lado de pessoas estranhas, é mais ou menos parecido com subir ou descer num elevador. Você se obriga a conviver por alguns minutos (muitos, no caso do Metrô) com desconhecidos, e a exercitar sua polidez e urbanidade. Sorrisos, com licença, desculpe, mais sorrisos, obrigado. Alguns meses atrás, quando era Tio Gigi que embarcava, se o horário permitisse, ele tratava de procurar um lugar para sentar e enfiava a cara num livro. Por pura timidez, acredite por favor! Hoje, como gosto sempre de chegar para a peça com uma hora e meia de antecedência, os horários de rush não me proporcionam nenhum refresco. Aí é Pascal que cobre a careca com um boné, atocha uns óculos escuros, e vai ensardinhado de Copacabana até o Centro, levando alguma cotovelada, uns beliscões, ouvindo pedidos de autógrafos e de fotos. E ganhando até cantadas, acredite se quiser!
Num domingo desses, depois de um primeiro tempo em que o Botafogo ainda ganhava do Flamengo, eu ia desfrutando do vagão semideserto, enquanto matutava::
- Será que eu não estou exagerando não? Por que que eu não pego um táxi meu Deus do céu? Será que eu não estou, como dizem os sacanas dos americanos, "playing poor"? Pra que ficar passando por aquele sufoco! A Cláudia Raia não anda de Metrô, anda...?
Estava me batendo com essa conjectura quando senti uma coxa roçando na minha. (...!) O vagão estava praticamente vazio, por que alguém vinha sentar justo colado comigo? Encarei a figura ao meu lado e reconheci o Marcelo Escorel, maravilhoso ator carioca, protagonista de muitos espetáculos teatrais, que você já deve ter visto em pequenas aparições na TV.
- É isso! exclamei, para espanto dele. E concluí, resolvendo de vez minha questão:
- Estrelas não andam de Metrô! Bons atores, andam.

Pano rápido.


Em 2002 com Marcelo Escorel no curtametragem de Ronald Palatinik, Cego e Amigo Gedeão

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 7:59 PM

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Quarta-feira, Abril 18, 2007

NA TRAVE



Embora torcedor do Fluminense, sempre fui fã de ROBERTO DINAMITE. Meio de longe, escondido, admirava sua elegância, o temperamento de lider e o talento explosivo de goleador. E lamentava que ele, com uma fidelidade de muitos anos, pertencesse a outro plantel que não ao Tricolor das Laranjeiras. Depois que abandonou a carreira de jogador de futebol e elegeu-se deputado estadual pelo Rio de Janeiro, passei a acompanhar sua atuação na Câmara e a aplaudir-lhe os dribles políticos, como quando tenta virar o jogo viciado que há décadas engessa seu clube, o Vasco Da Gama. Minha admiração, porém, transmudou-se em indignação quando, dois dias atrás, li no jornal que o ex-atleta tinha mandado para apreciação de seus pares em plenário, um projeto de lei que estendia a nefanda prática da meia-entrada nos espetáculos de diversões públicas do Rio de Janeiro, aos... doadores de sangue!
- Como é que é, Roberto Dinamite?! O que Vossas Excelências pretendem, além dessa demagógica caridade com o chapéu dos outros? O que virá a seguir? Como ator/doador de sangue que sou e quase terceira idade que estou, exijo também uma lei que me permita pagar ao menos meio cafezinho em qualquer boteco de esquina!
Digitei estas e outras frases iradas no seu perfil lotado, que até então figurava na minha lista de amigos do ORKUT.
Por coincidência recebi hoje um e-mail do meu xará, o ator e diretor mineiro Pedro Paulo Cava, transcrito abaixo, onde ele estende, explica e contextualiza a discussão:

Notícias do Curral del Rey
Meia-entrada. Quem paga a conta?
Fui ontem à tarde, mais uma vez, a audiência pública da Assembléia Legislativa de Minas, sobre a questão da meia entrada nas casas de espetáculos e cinemas. Mais uma lei, mais um deputado ou muitos, tentando ganhar votos com nosso dinheiro. Não me deixaram usar a palavra, cassaram o meu direito de cidadão e patrão daqueles que estão recebendo polpudos salários porque são nossos funcionários públicos: os deputados.
Isso não importa.
Falaram por mim Fernanda Montenegro (em vídeo), Lúcio Oliveira e Cássio Pinheiro. Falo por aqui que talvez escutem melhor a minha indignação para além das paredes da assembléia.
Desconheço, desde que o estado de direito voltou ao Brasil, uma interferência do Estado na economia em que ele não tenha subsidiado a perda de receita dos que trabalham e produzem.
Por que com a cultura seria diferente? O que temos nós de tão frágeis que em todo início ou final de legislatura tem alguém querendo conceder gratuidade, descontos em nossos espetáculos, como se fossemos concessionários do serviço público? Não somos! O poder público não nos dá licença para trabalhar ou viver nesse País. Somos artistas e vivemos do que sabemos e aprendemos a fazer. Somos artistas por profissão, paixão e ofício. Temos filhos, famílias, pagamos impostos, escolas, aluguéis, planos de saúde, compramos o leite e o pão que nos alimentam e ainda temos que dar de graça a única coisa que temos para vender?
E não temos sequer um plano de aposentadoria especial. Todos que conheci morreram trabalhando no palco ou jogados em algum asilo nas periferias das grandes cidades.
Por princípio, não concordo com a concessão de gratuidade ou descontos através de lei em nossos espetáculos, seja lá para que categoria isso se destine. É inconstitucional, ilegal, imoral, e como é que isso passa nas comissões de constituição e justiça dos legislativos? Sabem disso mas acham que fazer média com estudantes ou idosos cabala votos em suas carreiras com aposentadoria garantida após 8 anos de mandato.
Concordaria se a assembléia de Minas ou qualquer outra, votasse leis que obrigassem aos supermercados a vender o arroz, o leite e o feijão com 50% de descontos, obrigasse aos hospitais privados a atender a população com 50% de descontos em tratamentos, exames e internações, obrigasse aos bancos a cobrar meia tarifa, obrigasse às teles a cobrar meio impulso, (...) obrigasse o comércio a conceder descontos em qualquer produto a quem tivesse uma carteirinha de estudante. Todos teriam, até eu iria comprar a minha em qualquer esquina da cidade, porque as vendem aos milhares. E custam barato. O público de teatro hoje é constituído por 98% de "estudantes" de todas as idades e categorias. Os 2% restantes, que pagam o ingresso inteiro, arcam com o prejuízo em parceria com os artistas.
Concordaria ainda se cada deputado, senador ou vereador que votasse esses projetos, abrisse mão de 50% de seus vencimentos brutos em favor da cultura, ou quem sabe, da saúde, educação, habitação...
(...)Quanto aos estudantes, como mudaram! Nos anos 60 e 70, anos de chumbo, eles eram os parceiros maiores do teatro, cinema e música. Não só enchiam as casas com sua presença como a meia-entrada era um acordo de cavalheiros e não uma lei empurrada pela nossa goela abaixo. Eles garantiam através das suas entidades, DAs e DEs, o público certo em nossos espetáculos e mais, compravam ingressos antecipados, divulgavam nas escolas e ainda de quebra, ajudavam financeiramente as produções que lhes interessavam politicamente.
(...) E não era lei, era parceria. Hoje os estudantes querem apenas a "lei de gerson", levar vantagem e fazer finanças com nossa aparente fraqueza diante do absurdo que é a obrigatoriedade da meia-entrada.
Nada contra eles, nada a favor. Também já fui estudante e usei desta prerrogativa quando era apenas uma concessão que teatros e cinemas faziam para aumentar seu público.
Mas os tempos eram outros e hoje, se deixarmos passar mais concessões nos legislativos, vamos acabar fechando nossas casas, parar de produzir e quem sabe, pedir emprego de assessor a algum deputado na assembléia de Minas. E o que é pior, pode ser que alguém consiga essa vaga.
Pedro Paulo Cava
abril / 2007

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 12:42 PM

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Sábado, Março 24, 2007



DO AMOR

Deu hoje, n'O Globo, na coluna Henhenhém, de Jorge Bastos Moreno:

Falar em amor, leiam esta do gênio Caetano Veloso, depois da exibição do "Ó paí,ó" no Rio:
-Amar é bonito, mas ser amado é um estorvo"


Abaixo vai um pequeno trecho do conto A Balada do Café Triste , onde Carson Macullers expõe sua visão poética sobre o assunto. A ação passa-se num minúsculo povoado no sul dos Estados Unidos, e fala de um estranho triângulo entre um homem bonito, uma mulher poderosa e um anão.

(...)Mas o que é, exatamente, o amor? Em primeiro lugar, é um sentimento comum entre duas pessoas, o que não significa que elas vivenciem esse sentimento da mesma maneira. Não. Há quem ama, e há quem está sendo amado, e cada um vem de mundos diferentes. Freqüentemente, o amado (ou amada) é um sublime repositório para todo o amor guardado, há muito tempo, no peito do amante. De algum modo todo apaixonado sabe disso: sente, lá dentro, que o seu amor é solitário, e passa a vivenciar essa espécie nova e muito estranha de solidão. O amado também pode apresentar-se sob qualquer forma. Sim, qualquer ser, mesmo o mais grotesco, pode servir de estímulo para o amor. O amante conhece e identifica os defeitos do amado, mas isso não diminui em nada a intensidade do seu amor. É tão somente o amante -o apaixonado- quem determina o valor e a qualidade de qualquer amor. Talvez por isso, a grande maioria de nós prefere amar do que ser amado. E a verdade mais dolorosa, extraída à ferros, é que para muitos a sensação de estar sendo amado é quase insuportável. O amado teme e odeia o amante. E com razão, pois o apaixonado precisa, pede, exige, roga, suplica. Mesmo que isso só cause muita dor aos dois. Mas, apesar de sabermos que os fatos que envolvem o amor são quase sempre tristes e ridículos, deve ser lembrado que ninguém pode realmente saber o que acontece na alma de alguém apaixonado. Um sentimento selvagem, belo e extravagante, como os lírios venenosos do pântano(...)



Fotos Hermano Taruma



postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 12:04 PM

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Sábado, Dezembro 30, 2006

- ANO VELHO -
Esta letra de Jorge Benjor estava na pesquisa do espetáculo SOPPA DE LETRA, mas foi preterida em favor de uma outra, (mais moderna, nós achávamos) de autoria de M.V. Bil.
A primeira gravação de CHARLES ANJO 45 , pelo ainda Jorge Ben, é de 1969. As várias leituras que ela permite, assim como sua atualidade, são impressionantes.

Oba, oba, oba, Charles!
Como é que é, my friend Charles?
Como vão as coisas, Charles?
Charles, anjo 45,
protetor dos fracos e dos oprimidos,
Robin Hood dos morros, rei da malandragem.
Um homem de verdade,
com muita coragem.
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
e foi tirar, sem querer,
férias numa colônia penal.
Então uns malandros otários,
deitaram na sopa,
e uma tremenda bagunça o nosso morro virou.
E o morro, que era um céu,
sem o nosso Charles um inferno virou.
Mas Deus é justo e verdadeiro,
antes de acabar as férias
nosso Charles vai voltar.
Paz, alegria geral,
todo o morro vai sambar
antecipando o carnaval.
Vai ter batucada,
uma missa em ação de graças,
whisky com cerveja
e outras milongas mais.
Muita queima de fogos
e saraivadas de balas pro ar,
prá quando nosso Charles voltar.
E o morro inteiro feliz
assim vai cantar:
Oba, oba, oba, Charles!
Como é que é, my friend Charles?
Como vão as coisas, Charles?


(foto de Hermano Taruma)

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 10:24 PM

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Quinta-feira, Novembro 23, 2006

ARTE SEVERA




Por muitos motivos tenho estado mudo. Olhos no chão, estéril, paralisado. SULLEN ART, de Dylan Thomas, chegou até mim como um presente de Renato Rocha, meu contemporâneo no Conservatório Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, nos anos 60, e hoje um dos diretores da Radio MEC. Sempre que ponho meus olhos neste poema, imagino, muito convencido e reconfortado, que é um louvor à minha arte, ao meu ofício. Mas, certamente, o poeta fala de si; fala de todos; de qualquer um. Os versos foram traduzidos muitas vezes: por Ivan Junqueira, Mario Faustino, Bráulio Tavares, o próprio Renato. E eu, o que fiz, foi desarruma-los.

No meu ofício, ou arte severa,
que exercito na quietude da noite,
quando apenas a lua se enfurece
e os braços dos amantes em seus leitos
as suas próprias dores vão estreitando,
eu trabalho sob a canção da luz.
Não pelo pão de cada dia, nem
por ambição ou pelo comércio
de encantos nos palcos de marfim.
Mas pelo simples salário pago
pelo secreto coração deles.

Não é para o homem orgulhoso, alheio
à tormentosa lua, que escrevo
estas páginas feitas de espuma.
Nem para os mortos monumentais
com seus rouxinóis e seus salmos.
Mas para os apaixonados,
que estreitam nos braços a dor de todos os tempos.
Que não me louvam, não pagam, nem sequer
percebem o meu ofício, a minha arte.


Foto Hermano Taruma

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 11:01 PM

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Domingo, Setembro 24, 2006

SEMANA DE BLOGAGEM SOBRE ÉTICA


FAIR PLAY - JOGO LIMPO

Um jogador do time com camisas vermelho e brancas (Ajax) havia sofrido uma falta, e estava no chão, com dores. Como de costume, o time adversário (de camisas amarelas) joga a bola para fora de campo, afim de que seu oponente possa ser atendido. Depois que o contundido se recupera, o jogador do Ajax vai devolver a bola e, sem querer, acaba fazendo um golaço. Todos, inclusive o autor do gol, ficam sem graça, mas o gol é validado pelo juiz. Ao reiniciar-se o jogo, os jogadores do Ajax não se movimentam e permitem que o time de amarelo também faça um gol.



Esta é uma belíssima lição, para qualquer povo e em qualquer aspecto, e mostra que pode haver ÉTICA e HONESTIDADE mesmo na mais aguerrida disputa.

BOA ELEIÇÃO PARA TODOS

postado por: PEDRO PAULO MARQUES RANGEL - 12:56 PM

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